terça-feira, 19 de outubro de 2010

DERRUBANDO A TORRE DE MARFIM

Por Diogo Pinheiro (Coordenador do Projeto Comunica/Letras-Chapecó)  

A universidade brasileira tem sido frequentemente acusada de se esconder em uma torre de marfim, onde desenvolve estudos e pesquisas que pouco ou nada afetam a vida da população. Em que pese o exagero de algumas dessas críticas, o fato é que elas têm um fundo de verdade. Como explica o professor Antonio Alberto Brunetta, coordenador do curso de Pedagogia do campus de Chapecó da UFFS, a universidade brasileira se viu apartada da sociedade durante o regime militar. “Isso teve um lado positivo, porque permitiu o aprofundamento das análises e da reflexão crítica. Agora, porém, está mais do que na hora de promover uma reaproximação entre o campus e a população”.

Para a UFFS, não existe outro caminho possível. Criada a partir de reivindicações populares, ela assume um compromisso declarado em intervir diretamente na sua região de abrangência. Mas como fazer isso? De que maneira, exatamente, ela poderia contribuir positivamente para os destinos da Mesorregião da Fronteira do Mercosul?

As duas reportagens abaixo procuram sondar alguns desses caminhos. Na primeira, a acadêmica Duana Gerhardt, do curso de Administração, conversou com professores do campus de Chapecó. Na segunda, Lourdes Antunes, estudante de Pedagogia, foi ouvir representantes da sociedade. De um lado e de outro, o objetivo é um só: construir uma ponte que permita escapar da torre de marfim.
UFFS PROMETE AVANÇO E TRANSFORMAÇÃO NA MESORREGIÃO

Por Duana Gerhardt (Administração / Chapecó)

A UFFS é a primeira universidade pública da Mesorregião da Fronteira do Mercosul. O sonho de uma universidade federal na região perdurou por cerca de 50 anos. Agora que ele se concretizou, é o momento de perguntar: o que a universidade pode oferecer para a sociedade? Em busca de respostas, fomos conversar com alguns professores do campus de Chapecó.

Na opinião da Diretora do Registro Acadêmico da universidade, Claudia Finger-Kratochvil, a contribuição mais importante está na questão sócio-afetiva. Ela diz que, com a instalação de uma universidade federal no oeste catarinense, os jovens não precisam mais se desprender de suas famílias em busca de ensino superior gratuito e de qualidade. Com isso, não haverá mais tanto êxodo de cérebros – o que significa que a massa pensante irá permanecer na região onde se formou. “Na época em que eu quis cursar uma faculdade, tive que deixar minha família com apenas 16 anos. Além disso, fui uma das únicas que voltou para a cidade de origem depois da formação”, completa a Diretora.

Para o professor e coordenador do curso de Administração, Darlan Kroth, uma das principais contribuições da UFFS é o capital humano, ou seja, o conhecimento adquirido através do ensino de qualidade. Mas ele cita ainda duas outras questões: a movimentação da economia, impulsionada pela geração de renda, e também o aspecto cultural. “A cidade de Chapecó ainda é pobre em cultura. A comunidade não tem muito acesso à arte, e a UFFS será o veículo para oportunizar os espaços artísticos e culturais”, prevê.

Para ele, no entanto, o aspecto mais relevante é outro: a formação do senso crítico. Segundo o professor, a universidade levará os acadêmicos a desenvolverem “uma nova forma de pensar, graças à qual haverá mais participação popular e os movimentos sociais se tornarão mais comuns”.
A VOZ DO POVO

Por Lourdes Antunes (Pedagogia / Chapecó)

A UFFS completou, no mês de setembro, seu primeiro ano de existência concreta. Uma vitória que traz, de carona, uma série de desafios e responsabilidades. A principal delas: fazer a diferença na vida dos moradores da mesorregião da fronteira Sul. Mas, afinal, o que essas pessoas esperam da UFFS? Para descobrir, fomos conversar com alguns moradores de Chapecó.

A historiadora Salete Maria Fanin, que trabalha na Secretaria da Educação de Chapecó, não deixa por menos. “Eu espero que a universidade traga crescimento humano e inclusão social”. É o mesmo discurso de Casemiro Roberto, que atua na área de comunicações da Radio Chapecó. Para ele, a universidade tem muito a contribuir para a educação do município. “Pessoas selecionadas entre tantas trazem em seu currículo experiências, saberes diferenciados, métodos novos que só vêm agregar aos que já existem.” Na opinião do entrevistado, essa interação será um estimulo e tanto para quem chega como para a comunidade da região, que tem consciência do peso da educação para o desenvolvimento humano.

A professora Fanin chama atenção ainda para outro ponto. “O aspecto mais importante dessa universidade é que ela não surgiu do nada. A UFFS é fruto de uma reivindicação coletiva, uma resposta à carência da região”. Quem o digam as estudantes Priscila Cantoni e Ana Paula Venturim. Integrantes da Pastoral de Juventude, movimento que participou da luta pela criação da UFFS, elas hoje são alunas do curso de Pedagogia da universidade. “Foram muitos debates e mobilizações para que a UFFS virasse realidade. E ela já está fazendo a diferença para nós”.

Não são apenas elas que agradecem. Fanin lembra ainda que a instalação de uma universidade federal na região tem pelo um efeito colateral positivo: a dinamização da economia. “O comércio também agradece os novos frutos colhidos, e junto com ele o ramo imobiliário, que vive hoje dias de expansão”, comenta. Mas isso, claro, está longe de ser o mais importante. “Sempre defendi uma educação gratuita e de qualidade para todos. Agora que isso se tornou possível, coloco-me à disposição para ajudar”.

Se a população do oeste catarinense saúda a chegada da UFFS, mães de famílias e donas de casa não têm dúvidas: para elas, o que importa mesmo é saber que seus filhos terão oportunidade mesmo sem estudar em uma escola particular.

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